Outsiders
Como eu falei no post pré-festival, um dos aspectos mais saudáveis da publicidade é a colaboração intensa com os melhores nomes das áreas circundantes - música, cinema, tecnologia, literatura, entre outras. E ontem, justamente, o dia foi dos atores, músicos, poetas e desenvolvedores de games, não dos publicitários.
O Yahoo, por exemplo, convidou o ator, produtor, diretor e empreendedor Robert Redford para falar da importância - e dos segredos - de se desenvolver conteúdo de qualidade. Redford provocou lotação absoluta não apenas no auditório principal, mas também na sala reservada à transmissão via telão. Respondendo às perguntas do VP Executivo do Yahoo para as Américas, Ross Levison, o histórico Sundace Kid começou falando sobre as escolhas profissionais de sua carreira, mas acabou discorrendo mesmo foi sobre a decisão de criar o Sundance Film Festival. Há mais de 30 anos que o Sundance vem revelando novos nomes para a arte e para a indústria do cinema. Apesar da proposta independente desde o início, Redford disse que Holywood nunca foi contra o festival. “Eles apenas não entendiam porque eu queria fazer isso. Meu agente também não.”
Por que, então, um ator no auge do sucesso arruma um festival de cinema independente no meio do nada? Só pra se incomodar? “No fim dos anos 70, o dinheiro do cinema começou a migrar para filmes de efeitos especiais direcionados a audiências mais jovens. Eu senti que filmes mais humanos precisavam de um lugar para acontecer sem as pressões do dinheiro.” Antecipando em décadas a interação direta entre produtores de conteúdo e audiência, Redford também contou que, desde a primeira edição, sempre incentivou o encontro do público com os profissionais do cinema no festival.

Provocado a dar sua visão aos publicitários sobre o que faz um bom conteúdo ser bom, respondeu dizendo que “uma boa história é contar algo que as pessoas ainda não saibam, mas que toque o seu coração, que as informe de um jeito que elas não foram informadas antes.”
A cadência firme e pausada da fala de Robert Redford trouxe um ar um pouco mais contemplativo para um festival que tem ares hiperativos. Perguntado sobre seu processo criativo, disse que a melhor forma de desbloquear uma idéia que não quer acontecer é sair para caminhar, simplesmente dar uma volta. A desconexão e a necessidade de relexar, por sinal, tem sido um tema recorrente por aqui, como falei no post anterior. No seminário seguinte, da Starcom Mediavest Group junto com o TED, não foi diferente.

O CEO da M-Via Bill Barhydt abriu o seminário fazendo uma breve porém provocadora apresentação sobre o poder do SMS no mundo, comparando os números de uso dessa ferramenta simples com as conexões de internet. A conclusão de Brhydt é que o SMS é a verdadeira rede de penetração global. Especialmente no continente africano, o SMS tem uso universal, não só para enviar mensagens, mas principalmente para transações financeiras. Apesar de impactante, a apresentação da M-Via não é exatamente nova. O caso da África vem sendo bastante comentado nos últimos anos no mercado de mobile marketing.

Em seguida, o escritor Tom Chatfield ofereceu aos presentes um novo modelo para se pensar a nossa relação individual com as ferramentas tecnológicas. Para Chatfield, as duas mentalidades extremas, de abraçar totalmente ou repudiar as conexões digitais, são… extremas.
O conceito que ele propõe, de alternar as duas no nosso dia-a-dia dele, pode parecer óbvio. Mas é tão óbvio que a maior parte das pessoas não se dá ao trabalho de tomar para si a responsabilidade de se conectar e desconectar, acostumando-se a culpar frequentemente os aparelhos digitais pelo tal de “information overload.”
A mensagem de Chatfield é clara: nós é que devemos escolher…

… quando vamos nos conectar e quando vamos nos desconectar. E não os aparelhos ou os conteúdos.
Quem fechou a apresentação do TED foi a poeta Sarah Kay. Misturando a tradição da poesia declamada com a cultura americana do spoken word, Sarah calou o auditório e transformou a atmosfera do Théâtre Debussy com algo que parecia magia. Meio relato narrativo, meio poesia, a uma performance certa altura Sarah disse que “O impossível está sempre tentando se conectar com o nosso mundo.” Existem algumas pessoas que funcionam como antenas desse processo e sem dúvida Sarah é uma delas.
Falando em antena, mais tarde pudemos presenciar outra delas em funcionamento. O rapper Pharrell Williams dominou o seminário da Digitas e da Vevo como quem estivesse numa batalha de MC’s. Pharrell, além de artista solo, membro do N.E.R.D. e do The Neptunes, é proprietário de duas marcas e produtor com músicas da Madonna, Gwen Stefani, Snoop Doggy Dog e Britney Spears no currículo. Em resumo, Pharrell é um homem de seu tempo na acepção mais pop da palavra.
Dividindo o palco com executivos da (gravadora) Universal, da (plataforma de vídeo online de música) Vevo e da (agência digital) Digitas, Pharrell acabou se destacando pelas declarações autênticas e malemolentes. Dono de uma base de fãs e um trabalho pop consistente, Pharrell tem conhecimento de causa para falar sobre os melhores caminhos do fortalecimento da conexão entre os fãs de música, os artistas e, como era o tema do seminário, as marcas.
Um dado curioso (porém lógico) trazido pelo seminário mostra que apesar do faturamento da indústria da música estar caindo a cada ano, o número (e o envolvimento) de fãs não pára de crescer. A explicação é simples, como Pharrell colocou: “o monopólio da indústria fonográfica foi substituído por um modelo mais plural.” Em outras palavras, quem é fá de música deixou de depender das gravadoras para ter acesso ao que lhe interessa.
Posta essa questão, os debatedores todos orbitaram ao redor das declarações do carismático rapper para solucionar o problema. A essência do seu argumento veio numa comparação das gravadoras com a indústria da tecnologia: “As gravadora costumam pensar: ‘como eu posso vender mais música pra mais gente?’ As empresas de tecnologia como Apple e Microsoft se dão bem porque pensam ‘preciso resolver tais e tais problema das pessoas’”.
O recado é claro para as marcas - e de marcas o rapper também entende. Dono de duas e parceiros de outras tantas em projetos conjugados de música e publicidade (como Mc Donald’s, Louis Vutton e Harley Davidson), Pharrell ainda colocou que uma boa marca precisa ter uma certa auto-confiança relaxada, uma malandragem, um street smart, como quem diz “ok, vamos fazer isso aí que ninguém acredita que pode dar certo”. Como exemplo, citou Steve Jobs e lembrou: “quando a Apple anunciou que iria criar um telefone, ninguém deu muito crédito pois não era o core business deles. Hoje todo mundo gosta, mas na época as pessoas simplesmente não acreditavam. E Jobs simplesmente foi em frente, como quem diz ‘ok, vamos fazer esse negócio aí’.”.

Alinhado com todo esse papo, no fim do dia subiu ao palco um dos executivos da Rovio, a companhia finlandesa responsável pelo game hit Angry Birds. Com mais de 200 milhões de downloads no mundo todo e Top 1 na iTunes Store por mais tempo que qualquer outro aplicativo, Angry Birds é mais do que um simples “joguinho”. É uma plataforma de mídia com comunicação instantânea com os 200 milhões de usuários, ou fãs como prefere Peter Vesterbacka da Rovio. “É assim que gosto de chamá-los. São fãs, não consumidores ou usuários. É assim também que gostamos de tratá-los. Eu mesmo respondo uma boa parte das perguntas e sugestões dos nossos fãs pelo Facebook e pelo Twitter. Eu não tenho muito tempo livre, mas isso é o certo a se fazer, você tem que se manter em contato com os fãs.”
Apesar de estarmos falando de uma pequena empresa de geeks finlandeses, engana-se quem pensa que o sucesso de Angry Birds nasceu do computador de um nerd que escreveu o código do dia para a noite em seu quarto. A Rovio tem 8 anos de estrada trabalhando para grandes empresas de games e resolveu criar Angry Birds de forma sistemática, científica, com uma abordagem analítica de entretenimento. “Nós projetamos cada nível retirando os obstáculos que tornam um jogo ruim.” disse Vesterbacka. O que não quer dizer que o processo tenha sido enfadonho. “Resolvemos criar nosso próprio jogo porque não nos divertíamos e nem ganhávamos dinheiro trabalhando para os outros.”
Falando em diversão, Vesterbacka foi um dos palestrantes mais divertidos do festival até agora. Subiu no palco vestindo um moleton estampado com um dos Angry Birds e parecia não se conter de felicidade com o próprio êxito, misturando informações estratégicas com o mais puro sarcasmo. No final, ainda personificou seu próprio jogo, atirando bichos de pelúcia de Angry Birds para (ou na) platéia.
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Uma digressão para fechar o post: inicialmente, achei irônico ver um rapper (que talvez fosse expulso de um lugar como esse há uma década) ensinando profissionais de marketing. Mas depois, lembrando do estado do rap atual nos Estados Unidos, pensei que faz todo o sentido do mundo.
Por Gustavo Mini
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